O medo que faz parte de emigrar — e o que passa da conta
Sair do país de origem implica, quase sempre, atravessar uma zona de incerteza: um idioma novo, burocracia desconhecida, redes de apoio que ficaram para trás. Sentir receio nesta fase é esperável — o corpo está a reagir a mudanças reais, não a um perigo imaginado.
O problema começa quando esse receio deixa de ser proporcional à situação e passa a condicionar decisões do dia a dia: evitar ir a repartições públicas, adiar candidaturas a emprego por medo de uma entrevista, ou sentir um mal-estar físico intenso só de pensar em apanhar transportes públicos numa cidade nova. Quando isto acontece de forma persistente e desproporcional, já pode estar em causa uma fobia específica, e não apenas nervosismo passageiro.
Sinais que costumam pedir atenção
- Evitar ativamente situações ligadas ao processo migratório (documentos, entrevistas, ligações telefónicas em português) mesmo quando isso atrasa a própria integração.
- Reações físicas intensas — coração acelerado, tonturas, sensação de sufoco — perante situações concretas do dia a dia no novo país.
- Medo de julgamento ou rejeição por parte de quem já vive cá há mais tempo.
- Insónia ou pensamento repetitivo sobre cenários de “tudo correr mal”.
- Sensação de estar permanentemente “em alerta”, mesmo em contextos seguros.
Investigação recente confirma que este tipo de sofrimento não é incomum: uma meta-análise global situou a prevalência de fobia específica em populações imigrantes nos 8%, e de perturbação de ansiedade generalizada nos 9% (Amiri, 2022) — valores que mostram que o impacto emocional da migração vai muito além do que costuma ser falado abertamente.
Porque é que estes medos aparecem com tanta força
Do ponto de vista psicanalítico, um medo específico raramente é só sobre o objeto ou a situação que o desencadeia. No contexto migratório, é frequente que a fobia funcione como um lugar onde se concentra uma angústia mais difusa — a de perder a identidade, de não pertencer a lado nenhum, de falhar perante quem ficou. O “medo da repartição de finanças”, por exemplo, pode estar, no fundo, a proteger de um medo maior: o de não conseguires construir a vida que idealizaste ao partir.
A investigação sobre stress aculturativo tem vindo a confirmar esta leitura: revisões recentes mostram que o stress ligado à adaptação bicultural contribui de forma significativa para sintomas de ansiedade e outras dificuldades emocionais, independentemente de há quanto tempo a pessoa já está no novo país (Lerias et al., 2025). Ou seja, o tempo, por si só, não resolve — o que ajuda é poder elaborar o que está por trás do medo.
Quando vale a pena procurar ajuda
- Quando evitas sistematicamente tarefas necessárias à tua vida no novo país por causa do medo que provocam.
- Quando o receio já interfere com o trabalho, os estudos ou as relações que estás a tentar construir.
- Quando sentes que a ansiedade começou muito antes de emigrar, e a mudança só a tornou mais visível.
- Quando simplesmente queres perceber de onde vem tanto medo, e não só geri-lo no imediato.
O que a terapia pode oferecer
Numa terapia de abordagem psicanalítica, o objetivo não é convencer-te de que “não há motivo para ter medo” — isso raramente funciona e pode até fazer sentir-te menos compreendido/a. O trabalho é criar um espaço onde possas falar sobre o que realmente está em jogo por trás desse medo concreto, e ir perceber, com tempo, o que ele está a proteger ou a expressar. Estudos sobre o impacto do stress pós-migratório mostram que fatores como a preocupação com o que ficou para trás e a experiência de discriminação têm um peso particular no sofrimento emocional de quem emigra (Sifat et al., 2024) — são exatamente este tipo de conteúdos que a terapia ajuda a pôr em palavras.
Este texto tem um propósito informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Se sentes que o medo está a condicionar a tua vida no novo país, o melhor passo é falar com um profissional.
Referências
- Amiri, S. (2022). Global prevalence of anxiety and PTSD in immigrants: a systematic review and meta-analysis. Neuropsychiatrie, 36(2), 69–88.
- Lerias, D., Ziaian, T., Miller, E., Arthur, N., Augoustinos, M., & Pir, T. (2025). The Role of Acculturative Stress on the Mental Health of Immigrant Youth: A Scoping Literature Review. Community Mental Health Journal, 61(3), 462–491.
- Sifat, M. S., Kenney, S., Bekteshi, V., Chiang, S. C., Ogunsanya, M., Boozary, L. K., Alexander, A. C., & Kendzor, D. E. (2024). The association of migration-related stress with poor mental health among recently resettled Afghan refugees. Journal of Migration and Health, 10, 100282.